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Sobre o Pagode Baiano

Beco da Gal by Neyde Lantyer

(Texto postado no blog Obra em Progresso, de Caetano Veloso)

É a minha primeira vez no blog do Caetano, que já se parece com um clube de amigos (eu costumo ler calada, curtindo, como quem teme entrar na sala e interromper alguma coisa). Bem, mas hoje me deu vontade de entrar na polêmica do pagode baiano, ao sentir a vibração de Caetano e entendê-la perfeitamente…
Nessa época do ano, o banquete musical de Salvador é mesmo emocionante. Para quem desconhece isso ao vivo, gosta de música e viu algo em programas de televisão, eu posso compreender muito bem a dificuldade de gostar (é mais ou menos como o que eu sentia quando não conseguia gostar de samba enredo, até que fui ao meu primeiro ensaio de escola de samba no Rio de Janeiro e pirei). Alguns ritmos do carnaval de Salvador, necessita-se experimentar in loco…
Essa onda de samba em Salvador, o mesmo samba que, com a explosão do axé (e tambem do samba reggae) passou um bom tempo existindo mais nas rodas tradicionais (Batatinha, Maestro Vivaldo da Conceição, Ederaldo Gentil, etc) do que no grande carnaval, na última década explodiu pelos cantos da cidade e acontece que, durante o ano inteiro, nas esquinas ou quintais do Vale das Muriçocas, itapoan ou Garcia, os grupos de pagode explodem todos os finais de semana, culminando no sábado de carnaval, que é a grande noite do samba no Campo Grande e na avenida.
Numa das vezes em que estive em Salvador (sou baiana; moro fora), um amigo me levou na Vasco da Gama, num lugar chamado Bêco da Gal – que eu, aliás, passei algum tempo pensando que era Buraco da Gal – e era um quintal lotado de gente dançando um samba tão vibrante, tão gostoso, tão honesto… Foi uma noite sensacional!
Aliás, eu tambem falo que não gosto de axé e, realmente, o que eu menos gosto no carnaval da Bahia são os trios elétricos impondo seus decibéis e uma mesma forma histérica de dançar, para o meu gosto, desagradável. Mas que, as vezes, quando os trios tocam certas canções de melodias iluminadas, a coisa é delirante, é. Por exemplo, quando o Chiclete toca “Foi por esse amor/
seu corpo é tudo que brilha/
é a única olha no oceano do meu desejo…/
foi por esse amor/
tão bela flor de laranjeira/
seu corpo é tudo que cheira ah ah ah…/”. Ohhh…! Aliás, aproveitando que alguem aí em cima citou “Noites do Norte” justamente para dizer que quem fez coisa tão bela não poderia gostar de Pisirico, é justamente no dvd de Noites do Norte que Caetano diz, depois de cantar um axé: ” Há tantas canções lindas no carnaval da Bahia que se fosse para fazer uma antologia, daria uns 5 cds”. Amo isso em Caetano, essa sintonia, esse amor, essa capacidade de se emocionar.
Beijos para todos e um especial para Caetano!

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