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Eu era garota qdo fui pela primeira vez à praça Castro Alves e, para meu encanto, lá estava Caetano, no chão, entre nós, naquelas madrugadas incríveis

Foto © Caetano Veloso (sem autoria)

(Post no Blog Obra em Progresso de Caetano Veloso, 2009)

Mais um post lindamente sentimental, para o meu deleite que estou longe e não vi o Carnaval. Me senti consolada pela sua visão íntima, cristalina e tão sem conflitos, me ajudando a refletir em pontos, para mim, ainda muito contraditórios.

Tenho escutado, emocionada, que o carnaval do Rio se renovou através dos blocos e tanto o seu post quanto vários comentários aqui testemunham isso. Alguem aí em cima falou da aura sinistra que se formou em torno do Rio por causa da violência e eu vislumbro, na inocência desse tipo de carnaval low profile, gostoso, miudinho, aberto, um contraponto não somente à inacessibilidade do sambódromo, como tambem à crueldade do crime… Como um tipo de resistência sensível, que vai se formando na cidade…

O Carnaval de Salvador é uma coisa gigantesca, questionável pela fúria comercial, não pelo seu formato clássico. Concordo com Luedy sobre os super-poderes (com ou sem hífem?) dos trios (e dos camarotes), inviabilizando qualquer possibilidade de democracia. É tudo infinitamente contraditório pois há momentos sublimes nesse mesmo Carnaval que, de tão massivo e catártico, tornou-se um mito entre os mais jovens (vivo na Europa e aqui realizei que, quase que da mesma forma que os jovens muçulmanos sonham em ir à Meca, os jovens brasileiros de todas as partes do país, hoje, sonham em ir ao Carnaval da Bahia… não estou exagerando).

Eu era garota qdo fui pela primeira vez à praça Castro Alves e, para meu encanto, lá estava Caetano, no chão, entre nós, naquelas madrugadas incríveis. O Carnaval, então, já era imenso e trazia uma promessa no ar (que eu lia como uma promessa de prazer e delicadeza misturados, eu acho. Pois isso é o que eram aquelas noites da praça: poesia, novidade e êxtase, com o apoteótico encontro dos trios, com Novos Baianos e com Caetano, sempre dando canja na madrugada da quarta feira de Cinzas. Mas, rapidamente, tudo tornou-se grande demais e essa grandeza tambem suprimiu a promessa de prazer que os trios haviam sugerido.

Com a chegada da Axé music e a profusão das novas estrelas, veio tambem um jeito novo de fazer carnaval influenciado por Caetano, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar, no entanto cru até o osso, radicalizando nos aspectos menos lúdicos e cordiais, no “mete o cotovelo” (que na música de Caetano era anárquico e alegre), no “sai do chão”, nos gritos e pulos e coreografias, a rudeza se generalizou e a poesia se inibiu. Meu carnaval se tornou o Olodum na sexta, o Ilê no sábado, o Gandhi no domingo e mais recentemente, a Mudança do Garcia na segunda (a Mudança me deu a dimensão da quantidade de bandinhas querendo ir prá rua fazer seu carnavalzinho e e eu espero que haja mais e mais mudanças para que isso se torne possível). Esse Carnaval alternativo era (e ainda é) uma nova vertente do Carnaval da Bahia, parte da sua grandeza, mas nunca chegou a ser hegemônico e nunca conquistou, como disse Luedy, nem mesmo horários melhores para se apresentar no Campo Grande.

Minha única experiência dentro da corda foi no Araketu qdo aquilo, nos anos 90, com Tatau puxando, era lindo – eu não gostava de blocos mas uma amiga me arrastou. Mas, na avenida 7, o bloco se estreitava e a luta dos “cordeiros” para afastar a massa era um espetáculo melancólico, a segregação viva, alí frente a frente; eu tive medo e tristeza e nunca mais quis saber daquilo.

Uma outra questão é com relação à cidade em si. No ano passado, com a polêmica da tirada das pedrinhas portuguesas do Porto da Barra e com a difusão de uma notícia ainda mais horrorosa de que queriam ampliar o calçadão do Farol, entrando pela areia da praia, para dar mais conforto aos que alí correm todas as manhãs, me veio um pânico… ao mesmo me veio uma consciência clara da feiura daquela área da Barra e da subordinção da parte mais linda da cidade ao carnaval: prédios velhos, mal ajambrados, quase em ruínas que, durante o ano inteiro, só servem de especulação imobiliária e, finalmente, de camarote, durante o Carnaval. Camarotes que, diga-se de passagem, destroem o próprio calçadão para se instalar e sem nenhuma obrigacão de restaurá-lo, ao final da festa.

Pensei que se as coisas fossem como deveriam ser, para ampliar o calçadão, o mais justo seria desapropriar esses prédios e, mais sensato e mais correto ainda seria não ampliar coisa nenhuma (pois aquilo – a balaustrada, a praia, o farol – é um local histórico e, eu diria, sagrado) mas obrigar os proprietários a restaurar suas feiuras e cuidar das fachadas da Barra pois o Carnaval dura apenas uma semana e a vida dura muito mais. Assim como os “abadás” padronizados e anti-fantasia, aqueles prédios, os paredões dos camarotes, a luta das cordas e a exploração dos “cordeiros”, querido Caetano, são mau gosto.

Luiz Castello, que linda que devia ser essa sua mãe carnavalesca!

Labi, que história hilária… conheço a cena… haha!

Barbara, all the anti American mentions are references to the hegemonic empire and its devastating international policies. Never against the American people, my darling!

Caetano, um beijo!

P.S. Eu tbem quero ir junto com todos aqui para o lançamento do Zii e Zie em São Paulo!!!

Bem, já que estamos abertos a sugestões, por que Caetano não vem lançar Zii e Zie em Amsterdam :-)? Eu criei um festival de música brasileira na casa mais linda de Amsterdam, a Bimhuis, que é uma das casa de jazz mais importantes da Europa. O lugar é pequeno, só cabe no máximo 400 pessoas e o festival, as Brazilian Summer Sessions, estão no 3o. ano de sucesso. É algo pequeno e casa cheia..

 

 

 

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