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A Saudade Intangível

 

Eu acho difícil de realmente dizer o que é saudade, porque não é só a palavra, mas o sentimento. Acho que tem a ver com a coisa da nostalgia mesmo. A saudade é a nostalgia.

Eu acho que me encontro permanentemente em estado de saudade, não somente uma saudade do Brasil, mas uma saudade do passado. Já fico com saudade quando a coisa aconteceu ontem e eu perdi. Eu sou uma pessoa muito nostálgica.

Milan Kundera, por exemplo, no livro ‘Ignorância’, fala que saudade é quando você se distanciou a ponto de não saber o que está acontecendo e também de participar. Você está de fora, você está longe, está à parte, está afastado, então isso te cria um sentimento de desconexão que eu acho que é o que dói. Eu não sinto hoje em dia, uma saudade doída nem uma saudade romântica. Eu sinto muito é por não viver o que está acontecendo no Brasil hoje em dia, por isso eu me identifico com esta definição de Milan Kundera.

Intangibilidade
Acho que a saudade é do que foi, e o que foi você mesmo. A gente sente saudade de alguma coisa que a gente viveu e de alguém que a gente era. E de repente quando a gente se procura a gente não consegue mais tocar, é intangível.

Minha saudade é uma saudade bem sutil, presente o tempo inteiro pelo meu afastamento mesmo, por não estar vivendo no Brasil.

Eu acredito que quando a gente vem é porque já tem uma coisa dentro da gente que é inquieta, uma coisa que quer sair do Brasil ou do seu país, seja ele qual for. Se você não tiver uma razão de guerra, uma razão econômica, uma razão que seja exterior ao seu desejo. Eu sempre fui uma pessoa que gostaria de sair, então já tinha um sentimento de estrangeira na minha própria terra, numa medida mínima, mas a gente pode dizer assim.

Vivendo aqui eu sinto hoje falta do Brasil, muita vontade de voltar para o Brasil. Eu estranho várias coisas, eu questiono, eu reclamo, mas tem outras coisas que eu já incorporei, que eu já adaptei e que eu gosto. Eu não tenho nenhum sentimento negativo pela Holanda, muito pelo contrário. Acho que a Holanda é um país muito especial, um país que eu gosto.

Tem coisas de que eu não vou sentir saudade de maneira nenhuma, entre elas o inverno, mas eu vou sentir saudade, sim, da maneira como você se relaciona com as pessoas aqui.

Minha saudade não é muito passional, ela é mais cotidiana mesmo, e às vezes imperceptível, às vezes intangível. É uma saudade de quem eu fui num determinado momento. Porque não adianta você achar que você vai se manter o mesmo o tempo inteiro, você se mantém numa certa medida, mas em outra medida você não consegue e vem a saudade, que eu diria é uma certa dor.

Recordar é viver
A gente costuma dizer no Brasil que sentir saudade é recordar, é gostoso e tal. É verdade, existe uma saudade romântica. Minha mãe, por exemplo, era uma pessoa muito romântica, e ela dizia ‘ah, eu adoro sentir saudade do passado, lembrar das coisas’, como se houvesse uma beleza, e há, em trazer de volta o sentimento, em lembrar.

Mas eu acho que a diferença na saudade de quem mora longe, de quem vive como imigrante em outro país, é que houve um rompimento, e é como se você já não fizesse parte daquela memória de maneira nenhuma. É como se você estivesse completamente desconectado.

E eu tenho a impressão que esta saudade boa, esta saudade romântica, até alegre, que faz com que as pessoas cantem, nesta saudade você não tem a sensação de que você rompeu completamente e que você está de fora. É uma parte de você que só não está vivendo ali do lado…

* Imagem: ‘Saudade Dress’: Fotocolagem de Neyde Lantyer com referências a Louise Bourgeois e Keith Edmier, sobre uma foto de sua mãe sobreposta com o rosto da artista.

Entrevista p/a jornalista Mariângela Guimarães, RNW

http://archief.wereldomroep.nl/portugues/article/a-saudade-intangivel-mas-sempre-presente

Saudade: desire for something that will never come back.

Interview to Radio Nederland Worldwide (link)

Read the article in English: http://www.rnw.nl/english/article/saudade-a-desire-something-will-never-come-back

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