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Entrevista: “Neyde Lantyer, Uma Mulher Contemporânea” por Margô Dalla-Schutte / People From Brazil

Produtora cultural, artista e pesquisadora independente em fotografia, Neyde Lantyer estudou Artes Plásticas, Jornalismo e Serviço Social, graduando-se apenas neste último. Anos 80, uma época de agitação política e muita militância estudantil.  Esta baiana inquieta e contemporânea, nascida na cidade de Queimadas, no sertão, viveu intensamente, como estudante, as lutas pela redemocratização do país – uma  época de efervescência política nas grandes cidades brasileiras, especialmente em Salvador, um dos principais centros culturais do Brasil, precursor de grandes movimentos artísticos, intelectuais, políticos e musicais. 

A POLÍTICA

“Fui militante do movimento estudantil e ajudei a fundar o PT na Bahia, e acredito que um dos aspectos mais importantes no meu processo de politização foi a descoberta do feminismo. A leitura de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, foi uma “iluminação” na minha vida, tanto à nível político quanto pessoal – um livro lançado em 1949, mas incrivelmente atual! Por outro lado, a obra de mulheres contemporâneas, à exemplo da feminista brasileira Rose Marie Muraro e da fotógrafa americana Cindy Shermam, tambem foram essenciais no meu processo de descobertas sobre mim mesma e sobre as relações sociais. Mas especialmente, tive a sorte de ter vivido uma experiência de amizade incrível na universidade, com um grupo de meninas – e alguns meninos – de quem sou amiga até hoje. Juntas, na aula, na militância e na praia, fizemos todas as descobertas importantes sobre a vida, o amor, o sexo e a política. Tivemos uma enorme identificação e vivemos uma amizade inteligente, profunda e amorosa, que me permitiu expressar questionamentos e afinidades que eu trazia comigo desde muito garota.”

Salvador © Neyde Lantyer 1991Salvador, 1991

A FOTOGRAFIA

“Eu tinha abandonado Jornalismo, me formado em Serviço Social e estava cursando Artes Plásticas na Escola de Belas Artes da UFBa. Na época, eu já tinha uma visão crítica sobre arte, pintava, escrevia e estava em busca de uma forma de expressão para as minhas inquietações. Quando ganhei uma câmera reflex de minha mãe, eu rapidamente percebi o potencial da fotografia e sua adequação aos meus interesses e caí de cabeça! Era o início dos anos 90, aprofundava-se a recessão econômica com o governo Collor, outro período duro na história do Brasil. Uma época trágica para as artes em geral e na área da fotografia tudo era muito precário, não tínhamos acesso à equipamentos, não havia escolas – ao menos não na Bahia – e se havia um caminho para o desenvolvimento profissional, era a pesquisa independente, e foi o que eu fiz.”

“Interessante é que nessa época havia um número grande de mulheres fotógrafas em Salvador, e eu lamento não termos formado um núcleo feminista no campo da fotografia, o que teria sido maravilhoso! A verdade é que me sentia muito isolada nessa área nova, o que me levou a ler muito, a pesquisar muito sozinha, seguindo meus próprios métodos. Percebia que havia encontrado na fotografia o nicho que me possibilitaria usar todo o reservatório de informações adquiridas com as experiências vividas e larguei a Escola de Belas Artes e fui fazer cursos não-acadêmicos, entre eles o do Senac, por onde passaram todos os fotógrafos da época.

“A arte fotográfica vivia um momento de transição e de revisão de conceitos no mundo inteiro, enquanto que nós, no Brasil, ainda lidávamos com limitações básicas como a inexistência de uma estrutura institucional para a formação e a pesquisa. Em termos estéticos, ainda persistia um apego às fórmulas clássicas já consagradas de se fazer fotografia, alem de um senso-comum bastante arraigado de que a fotografia artística deveria ser em preto-e-branco, de preferência com o olhar voltado para o nosso próprio repertório cultural.”

“Mas eu não tinha nenhuma intenção de repetir modelos estéticos e nem de ficar presa à “exaltação” das nossas tradições, já tão exaustivamente exploradas…eu queria mais! Desde o começo optei pela cor, me interessei pelas multimídias e por novas formas de interpretação da realidade. Fui sempre muito independente e me sentia enormemente atraída pelo ainda incipiente debate internacional sobre as novas vertentes da fotografia artística contemporânea.”

 Lorena, 1994

A PRÁTICA ARTÍSTICA

“Improvisei um estúdio em casa e comecei a fotografar pessoas. Não tinha equipamentos adequados, mas ia criando soluções com o que dispunha. Aos poucos fui formando um corpo de trabalho focado no retrato, que foi o meu primeiro tema fotográfico. Em 1994 fiz a minha primeira exposição individual, no Museu Casa do Benin, em Salvador, um evento belíssimo e concorridíssimo! Foram 27 retratos em Cor e 11 em PB, ampliados em grande formato e dispostos em stands de vidro e madeira no espaço maravilhoso do museu! Tecnicamente foi uma exposição bastante heterodoxa, já que parte das imagens apresentavam colagem e desenho sobre fotografia, refletindo a minha passagem pela Escola de Belas Artes. A repercussão foi fantástica e a exposição foi um grande sucesso! Com esse trabalho, fiquei conhecida em Salvador e novos caminhos se abriram. Daí, não parei mais.”

“Em 1996 eu me iniciei na fotografia de rua, ao ser contratada pela prefeitura de uma pequena cidade do interior para uma cobertura do seu cotidiano. Para esse trabalho, fiz quatro viagens que me tiraram do estúdio e viraram completamente a minha cabeça. Tive a oportunidade de retratar as pessoas envoltas por suas casas e paisagens, em um contexto mais amplo do que vinha fazendo até então. Nesse lugar, vivenciei uma experiência marcante com as luzes e sombras intensas do sertão e mergulhei ainda mais fundo na cor, inspirada pela beleza real de pessoas muito simples e pelas linhas retas e cores primárias da arquitetura sertaneja. Foi tambem uma jornada sentimental, um reencontro comigo mesma, que nasci em uma cidadezinha como aquela. Resultou em uma série muito tocante, que eu ainda desejo transformar em livro.”

“Por fim, ainda sentindo muita necessidade de discutir fotografia e linguagens artísticas, criei meu próprio curso, chamado “Técnica e Linguagem Fotográfica”, que ministrei durante dois anos. Era um curso avançado que discutia formas de expressão, uma novidade, que atraiu muita gente. Com isso pude discutir criação artística em fotografia com grupos bem interessantes de alunos em um processo super gratificante, que me possibilitou sair do limbo em que a fotografia se encontrava, na época. Esse foi apenas o primeiro de vários outros cursos que ministrei e ministro desde então, seja de forma independente, seja ligada à instituições, tanto na Holanda quanto no Brasil.”

neyde-lantyer-interior-4Sertão Interior, 1996

A HOLANDA

“Vim à Europa pela primeira vez em 1994. Como todo mundo naquela época, eu tinha Paris e Londres na cabeça, mas quando conheci Amsterdã, me apaixonei! Visitei uma infinidade de museus e galerias, inclusive galerias exclusivas de fotografia – uma novidade, na época – e fiquei muito inspirada por toda a arte que vi. Então botei na cabeça que iria voltar para passar um ano e, realmente, alguns anos depois eu voltei, mas aí as coisas começaram a acontecer e eu fui ficando e aqui estou, há 15 anos.”

“Quando comecei a viver em Amsterdã, a impressão que tive era de que quase todo mundo fazia fotografia. Era uma prática muito democrática, muita gente tinha laboratório preto-e-branco em casa e, ainda na fase analógica, experimentava-se de tudo, bem diferente da nossa realidade no Brasil. Na busca por um caminho, fiz cursos e exposições – em 2002 fiz uma grande individual de retratos, em uma galeria da cidade – participei de coletivas, fiz catálogos para artistas e espetáculos, entre outros pequenos trabalhos, até que um dia, René, meu marido, me mostrou um anúncio no jornal procurando um fotógrafo “para trabalhos delicados”. Eu respondi ao anúncio e fui contratada. Era um trabalho de restauração fotográfica, um mundo completamente novo para mim.”

“Foram 8 anos trabalhando na recuperação de acervos de grandes instituições, entre as quais o arquivo nacional holandês, museus, editoras, empresas como a KLM, alem de parte do acervo da família real da Holanda. É um campo surpreendente! Na verdade, a durabilidade dos arquivos fotográficos eram uma incógnita até bem pouco tempo, já que ninguém sabia muito bem qual seria o resultado das transformações químicas provocadas pela passagem do tempo, nas fotografias. Estamos falando de um médium com uma história relativamente recente – menos de 200 anos. Os originais fotográficos, a princípio, não foram pensados com a preocupação da durabilidade. Fomos confrontados com o problema quando instituições se voltaram para o passado, desejosas de resgatar a sua memória, arquivos começaram a ser revisitados e muita coisa estava bastante danificada, devido à fatores diversos.”

“Eu entrei em um processo de paixão total pelo campo da memória, que passei a investigar também na minha prática artística. Passei a colecionar fotos antigas que encontro em “mercados de pulgas” ou em outros locais, fotos essas que edito e reinvento, e com isso acabei me afastando um pouco do ato de fotografar. Por exemplo, estou trabalhando em uma série sobre histórias de amor, a partir de fotografias de casais anônimos que eu recontextualizo, atribuindo-lhes um significado. Esse trabalho se chama “Histórias de Amor Perdidas” e é tipo um pequeno museu, um memorial para reverenciar aqueles amores dos quais nunca saberemos o desfecho. A verdade é que, independente da fotografia, eu me interesso muito pelo tema do amor e do relacionamento e tem sido muito prazeroso unir as duas coisas.”

photo neyde lantyer Amsterdam, 1999

A FOTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA

“Sou uma pesquisadora independente em fotografia e também uma artista deste campo. Tenho um enorme interesse teórico/crítico pelo médium fotografia, assim como pela fotografia como objeto e pelos resultados criativos que ela me permite alcançar. Em 2008 e 2009 fiz um curso na Universidade de Leiden, “Histories and Theories of Photography’, que me ajudou muito a organizar meus processos mentais e minhas linhas de estudo. A partir daí tive mais clareza de que a minha história cruza necessariamente a expressão artística com o interesse teórico. Isso, claro, reflete na minha produção, que não diz respeito apenas ao ato de fotografar. Trabalho com coleção, restauração, edição. É um escopo bastante amplo, que engloba várias vertentes, e todas no âmbito da fotografia contemporânea, que é, em última instancia, a área ampliada onde está o meu foco.

“Na verdade, pensar a fotografia hoje não se resume à olhar para apenas um aspecto da prática. Envolve a idéia e o processo, o contexto e a história por trás da imagem. O campo contemporâneo passa necessariamente pela heterogeneidade da fotografia como médium, suas diversas possibilidades, sua memória e sua prática ampliada, sem hermetismos. Os processos criativos atuais, a fotografia expandida, as intermídias, o campo documental, as narrativas ficcionais e, por outro lado, a fotografia vernacular e a memória, os arquivos públicos e pessoais e o passado, tudo isso faz parte de uma visão ampla e atual da fotografia e tudo isso me interessa muito. Trafego neste meio!”

Neyde-Lantyer-Time-out-1Amsterdam, 2013

A FUNDAÇÃO A HORA DO BRASIL

Quando cheguei na Holanda, ainda em processo de reconhecimento e decisões se queria mesmo mudar toda a minha vida e vir para cá, conheci você como diretora da Fundação A Hora do Brasil. O concerto era do músico Beirão e os filhos de Dona Nereide que aconteceu no Bimhuis, através de um projeto da fundação chamado Brazilian Summer Sessions e você e Cláudia Trajano eram as pessoas que impulsionavam estes eventos brasileiros. Fale um pouco sobre esta época.

“Eu costumo dizer que a Fundação deu sentido à minha vida na Holanda. Foi um projeto importante, ao qual me dediquei integralmente. A entidade foi criada em 2005 e, no ano passado (2012), encerramos as suas atividades.* Tudo começou com um chamado da embaixada aos artistas brasileiros residentes na Holanda, com o objetivo de formar um centro de cultura brasileira aqui. Muita gente compareceu à reunião no Teatro Ijsbreker e iniciou-se ali um processo que culminou na Fundação A Hora do Brasil. Minha intenção era dar uma contribuição na área de Artes Visuais, mas logo no primeiro ano houve uma crise, pessoas que estavam à frente saíram e eu, que lutei contra o fim do projeto naquele primeiro conflito, acabei sendo indicada para a presidência. Aceitei em termos temporários, considerando que poderia contribuir para com o processo de estruturação e consolidação da entidade, com a minha experiência em projetos. Mas na verdade, acabei me envolvendo completamente em um trabalho que me absorveu por vários anos.”

CREAHomenagem à August Willemsen

“Em 2007 saí da presidência, criamos um novo conselho diretor e nos tornamos, eu diretora artística e Claudia Trajano, diretora executiva.

A chegada de Claudia em 2006 foi fundamental para o processo de construção da fundação na prática, juntas nos afinamos muito, tínhamos visão, compromisso e ritmo de trabalho muito parecidos. Outras pessoas contribuíram em vários momentos – você foi uma delas, registrando e divulgando constantemente os nossos eventos. Permaneceram também até o final, mas sem envolvimento cotidiano, Julia Abreu de Souza, que realizou excelentes projetos na área de literatura junto com Claudia, e Luana Ferreira, membro do conselho diretor, que colaborou com os eventos e realizou, com Julia e Arlete Velu, um leilão de arte muito bacana, para levantar fundos.”

“Mas é preciso ter em mente que a gestão da organização, envolvendo o trabalho estrutural, burocracia, tarefas administrativas, alem de todo o pensamento estratégico, contatos com organizações e a elaboração de projetos necessitam de dedicação integral, e isso, eu e Claudia Trajano fizemos sozinhas. Nunca houve uma equipe atuando continuamente, fomos sempre e apenas nós duas. E era um trabalho totalmente voluntário! Alguns projetos foram eventualmente remunerados, quando conseguimos com muito esforço, captar recursos de fundos holandeses que subsidiam arte e cultura, mas nunca houve remuneração do trabalho diário que realizamos esses anos todos.”

LulaCom Dona Marisa e o Presidente Lula

“À frente da organização, o meu trabalho com fotografia ficou em segundo plano, simplesmente porque não sobrava tempo. Entrei em um processo de muito stress, pois me sentia bastante dividida internamente mas, ao mesmo tempo, tinha uma determinação obsessiva de levar em frente o compromisso assumido com a Fundação. Ficava repetindo para mim mesma que iria encontrar um tempo para me dedicar aos meus projetos artísticos, mas esse tempo jamais chegava. Uma verdadeira loucura, pois é o tipo de processo que não acaba nunca!

Foram 7 anos muito intensos durante os quais, realizamos belos projetos em várias áreas. Vale lembrar que A Hora do Brasil tinha sido pensada como um centro para abrigar todas as áreas artísticas, o que no discurso, era uma maravilha! Só havia um problema: a inexistência de uma estrutura compatível com tal objetivo. A verdade é que a embaixada, que foi quem convocou a criação da entidade, jamais assumiu qualquer compromisso com a mesma. Recebíamos contribuições de 1 ou 2 mil Euros quando estávamos lidando com orçamentos de 50, 60 mil. O fato é que nós “masterizamos” a arte de realizar com recursos escassos, mas obviamente, isso não se sustenta por muito tempo.”

“Se por um lado conseguimos, eventualmente, levantar fundos na Holanda para viabilizar certos projetos, por outro lado, nunca houve qualquer suporte financeiro do Brasil e, convenhamos, uma organização como essa, com o alcance que conquistamos, não sobrevive desgarrada. Era um paradoxo, quando produtores holandeses estavam recebendo dinheiro brasileiro para realizar projetos eurocêntricos, reproduzindo os mesmos velhos clichês que abominamos, como por exemplo – vale ressaltar – o Festival Brazil, realizado pelo Concert Gebouw, em cuja ficha técnica não constava sequer um brasileiro. Enquanto nós, que estávamos promovendo a cultura brasileira de uma forma inteiramente nova e relevante, trabalhávamos às nossas próprias custas… Essa era a realidade da A Hora do Brasil e mesmo assim nós fizemos muito, e eu me orgulho de tudo o que fizemos!”

ARCANARCAN, Amsterdam

AS BRAZILIAN SUMMER SESSIONS

“Apesar de adorar música, nunca pensei em trabalhar nessa área. Até criar as Brazilian Summers Sessions! Desde o início das discussões da Fundação, não faltava quem sugerisse todo tipo de programa de música que nunca se concretizava, até que, em 2006, eu tive um insight de que, se desejávamos nos apresentar como uma proposta nova em cultura brasileira, teríamos que criar algo realmente relevante na área musical. Percebi que isso tinha uma importância estratégica, já que a música é parte fundamental da identidade brasileira. Quando elaborei o projeto, inspirada no verão brasileiro, já estava pensando na Bimhuis, que é um lugar lindo e mais que perfeito, com aquela arquitetura charmosa e aquele fundo de palco de vidro, deixando entrar luz e paisagem!”

“Eu e Claudia Trajano iniciamos as Brazilian Summer Sessions no verão de 2007 e, a partir de então, ano após ano, fizemos o possível para viabilizá-las, sempre com o “auxílio luxuoso” da Bimhuis. Foram tantos artistas incríveis e shows inesquecíveis (Martnália Lazzo Matumbi, Luiz Melodia, Hamilton de Holanda, Virgínia Rodrigues, etc, etc…)! O projeto lançou, de fato, um novo conceito para a apresentação de música brasileira na Europa em um momento em que as apresentações brasileiras em festivais tradicionais estavam em baixa e, por outro lado, a demanda de artistas brasileiros por um pódio na Europa não parava de crescer. Eu e Claudia não tínhamos nenhuma dúvida quanto ao enorme potencial do nosso projeto e trabalhamos vislumbrando a sua expansão para os países vizinhos, mas infelizmente isso não se concretizou, devido às limitações já citadas.”
om Claudia Trajano no World Cinema Amsterdam
“Mas o projeto cresceu em outras direções! Em 2009, incluímos jam-sessions, com artistas locais (as concorridíssimas Rodas de Samba, lideradas por Nelson Latif) e uma mostra de documentários musicais, alem de instalações de fotografia e vídeo. Em 2010, demos um passo ainda maior, ao nos associarmos ao World Cinema Amsterdam, um festival novo, com a proposta bacana de mostrar filmes independentes vindos de fora da Europa. Fomos responsáveis por incluir filmes brasileiros no programa do festival e realizamos durante 3 anos, até o ano passado (2012), uma noite brasileira nas sessões de cinema a céu aberto na Marie Heinekenplein, com longas de ficção. No primeiro ano projetamos “Ó Pai ó”, de Monique Goldenberg, com o Bando de Teatro Olodum na praça lotada, foi lindo! No ano seguinte, “Tropa de Elite 2” e no ano passado (2012), quando o foco do festival foi o Brasil, programamos uma mostra completa de documentários musicais, as Brazilian Summer Sessions Docs, com uma noite de abertura maravilhosa, com o filme “Tropicália”, de Marcelo Machado.”
BSSCom Claudia Trajano na Bimhuis
“Foram duas parcerias muito felizes, com duas instituições incríveis! O World Cinema Amsterdam (do Rialto) nos proporcionou um espaço apropriado para os documentários, por se tratar de um festival de cinema, enquanto que o programa musical permanecia no melhor de todos os espaços de musica da cidade: a Bimhuis! Foi uma união perfeita, já que sempre desejamos realizar também sessões à céu aberto nas Brazilian Summer Sessions. Na verdade, eu e Claudia éramos bem ousadas, queríamos invadir a cidade durante o verão, levando esse projeto para vários palcos, através de diversas mídias e formatos e acho que conseguimos realizar esse sonho no palco de vidro da Bimhuis e nas projeções na praça Marie Heinekenplein. Sem duvida, o projeto fica para a história!**
AtlasMarrocos © Chico Colombo

O FUTURO

“O fato é que o volume de trabalho e de stress que eu vinha enfrentando na direção da Fundação chegaram a um termo em 2011, quando me vi às voltas com 4 projetos diferentes ao mesmo tempo, em 3 idiomas distintos, e não agüentei, literalmente. Acabei adoecendo e tive que parar para cuidar da minha vida. Não sei muito bem o que vai ser daqui a alguns anos mas quando penso no futuro, só penso no Brasil! Estou em um momento de juntar tudo o que eu fiz até aqui com o que deixei pelo caminho, com o objetivo único de ir ao encontro de mim mesma. Quero me dedicar inteiramente ao meu próprio trabalho artístico, estou organizando as minhas séries e produzindo novas. Pretendo expor e publicar.”

“A novidade é que criei recentemente o projeto “Cidade da Bahia – Fotografia & Cultura” (fotografiaecultura.com), uma plataforma online que visa construir um recorte da fotografia baiana, englobando desde a produção artística e o campo documental até a fotografia vernacular, os arquivos pessoais, e a memória da cidade do Salvador e do estado. É um projeto bem pessoal, que representa a maneira como eu vejo a fotografia. O site está lindo e significa muito para mim, pois marca o meu retorno à Bahia, e eu estou muito feliz por tê-lo criado! O objetivo é promover o médium, desenvolvendo colaborações que gerem um conteúdo que, espero, venha a estimular o pensamento e o debate. Quero tambem oferecer aulas abertas, palestras, workshops e criar os nossos próprios eventos, mas até aí há um longo caminho pela frente, por conta da enorme dificuldade para financiar um projeto como esse na Bahia.”

“Já faz quatro anos que venho passando a metade do meu tempo no Brasil e isso é muito importante para mim. Viver na Europa é, sem dúvida, uma experiência incrível, que me proporcionou um contato intenso com a arte e uma relação radicalmente nova com a cidade e o espaço público, que aqui é abundante e democrático (infelizmente o oposto da realidade da Salvador dos últimos anos). E o melhor de tudo: andar de bicicleta, que é o meu veículo e o meu maior prazer na Holanda! Mas há tambem o outro lado da moeda, o distanciamento, a saudade, pouco sol e as questões de identidade que surgem ao longo do tempo, gerando a sensação de não se fazer parte nem de um lugar e nem de outro. Chega um momento em que é necessário voltar para casa!”

Essa inquietação, esse desassossego e quebra de padrões, faz de Neyde Lantyer uma mulher como a sua fotografia-, contemporânea e ousada!

© Margô Dalla.

Amsterdã setembro 2013.

* Luana Ferreira demonstrou interesse em dar continuidade à Fundação a Hora do Brasil, criando novos projetos.

** Este ano (2013) as Brazilian Summer Sessions voltaram a acontecer com a Bimhuis à frente, mas ainda não se sabe qual será o futuro do projeto.

 

 

 

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