logo

“Uma Mulher com uma Câmera” TALKS ON PHOTOGRAPHY w/ Margô Dalla

 

Para mim, que me interesso pela fotografia não somente no que se refere à produção de imagens mas também ao pensar/refletir sobre a imagem produzida, seus signos, suas intenções, sua memória, sua importância, é extremamente prazeiroso conversar sobre fotografia e arte e meu desejo é despertar esse prazer em outras pessoas. A fotografia é um médium incrivelmente heterogêneo, com uma infinidade de possibilidades, e essa é uma questão bastante ampla porque a fotografia tem vários campos possíveis. Gosto de refletir sobre os rumos tomados pela fotografia nos dias de hoje e de me perguntar quem é o fotografo à quem nos referimos: é o artista? o jornalista? o fotografo de natureza? o turista fotografando a Torre Eiffel? a menina fazendo selfies para postar nas redes sociais? o fotografo de casamento? o fotógrafo de revista? o de publicidade? o retratista do interior? etc, etc…

Nosso tema hoje é o fotojornalismo, um campo pelo qual eu não passei, apesar de ter estudado jornalismo antes de estudar artes plásticas e de ter feito meu primeiro curso de fotografia nessa faculdade. O ato de fotografar para informar se mescla com os primórdios da fotografia, nas primeiras guerras documentadas pelo médium. A primeira tenho sido a Guerra da Criméia e depois a Guerra Civil Americana. Depois, a Primeira Guerra Mundial. Na verdade, desastres, acidentes, eram sempre assuntos que interessavam os fotógrafos e havia, já no século 19, periódicos que publicavam imagens desses episódios, através de métodos antigos, baseados na gravura.

Entretanto, a idéia de registrar o fato quando ele está ocorrendo, é uma idéia moderna, que surgiu décadas mais tarde. No século 19, havia uma dificuldade prática concreta, já que as máquinas fotográficas eram enormes e as fotos eram feitas a partir de placas de vidro 20x24cm em quantidade limitada. O fotografo itinerante viajava com uma carga muito pesada no lombo do burro, no trem, na carroça e qdo ele chegava ao local, ele realizava um numero mínimo de fotos, que tinham que dar certo, diferente dos processos de hoje quando se realizam milhares de fotografias para escolher uma. Por isso, durante muito tempo, as imagens foram produzidas depois dos acontecimentos e, não raro, encenadas.

O auge do fotojornalismo foi entre as décadas de 1930 e 1960. A evolução tecnológica e a evolução dos tempos, fez surgir as condições que o impulsionaram. Em 1925 foi inventada a câmera Leica 35mm. Pequena e prática, fácil de carregar, rápida e fácil de trocar o filme, a Leica possibilitou a agilidade do trabalho do fotografo e sua presença na ação. Logo depois, entre os anos 1927 e 1930, foram criados os primeiros flashs possibilitando trabalhar com pouca luz, embora se tratasse daquelas lâmpadas que vemos nos filmes de época, que estouravam assustando os fotografados. Aquele flash chegou a ser proibido no futebol brasileiro porque, apesar de positiva para os fotógrafos por paralisar o movimento, ele atrapalhavam os jogadores.

Dessa forma, entre 30 e 60 floresceu o fotojornalismo moderno, da maneira que conhecemos hoje, o fotojornalismo de ação, simbolizado por fotógrafos como Robert Capa e Gerda Taro, mais conhecida como sua namorada, mas em verdade, uma fotógrafa corajosa, que morreu em ação na Guerra Civil Espanhola. Capa fez as fotografias mais famosas da Segunda Guerra Mundial e ao final do conflito, fundou a Agência Magnun, ainda atuante nos dias de hoje.

O fotojornalismo no seu auge produziu grandes revistas de foto-reportagem como a Life nos EUA, a Cruzeiro no Brasil, e similares na Europa, como a Paris-Match, cujas fotografias tinham qualidade excepcionais e contavam histórias através de imagens. De lá prá cá muita coisa mudou, a tecnologia avançou tanto que hoje a imagem pode ser produzida e compartilhada por todos. No Brasil, embora em um tempo posterior, um grande momento do fotojornalismo foi a luta conta a ditadura, a abertura política e a luta pelo restabelecimento da democracia. A carreira de Margô Dalla coincide com esse período.

Eu dirigi a A Hora do Brasil Foundation aqui na Holanda e, quando realizava as Brazilian Summer Sessions, na Bimhuis, em Amsterdã, fui procurada por uma jornalista brasileira que estava vindo morar na Holanda e se ofereceu para fazer reportagens dos nossos eventos. Aquela jornalista era Margô Dalla. Ela fez entrevistas, fez cobertura fotográficas, publicou algumas vezes nossos eventos no Jornal de Brasília com grande destaque. Eu devo dizer que havia mta disponibilidade e vontade de ajudar da parte dela, o que não era muito comum na imprensa brasileira aqui. Devo lembrar que tivemos reportagens maravilhosas dos nossos eventos no Volkskrant, no Het Parool, mas como era difícil conseguir apoio de jornalistas e divulgadores brasileiros… Margô foi descomplicada e comprometida desde o começo, nunca atrasando seu trabalho, nunca se negando à ajudar nos cedendo textos e imagens.

Ficamos amigas e durante esses anos eu procuro compreender o seu trabalho como fotógrafa. Nao foi fácil, com a minha cabeça acadêmica, com a minha visão artística, com a minha pegada conceitual. Mas compreendi algumas coisas sobre a prática dela na fotografia. Margô é uma figura incansável e essa característica a ajuda a estar em muitos lugares ao mesmo tempo e a criar um grande volume de trabalho com cobertura fotográfica, alem de produção de texto, que ela continua fazendo. Compreendi que Margô Dalla é um produto do fotojornalismo, das redações de jornal, da rapidez e do compromisso. Ela estudou Artes Plásticas e fez alguns anos de Arquitetura, trabalhou na imprensa de Vitória, São Paulo e Brasília antes de vir para a Holanda. Vamos ouvi-la!

Neyde Lantyer, dez 2015.

_____________________________

Check the gallery of images here below:

 

 

 

Comments are closed.