logo

A visita

Eu tinha acabado de nascer. Minha mãe estava se recuperando do parto e imagino que ainda assimilando a maternidade. Uma de suas tias veio nos visitar. Ao olhar para mim, a primeira coisa que falou foi “É caboclinha como a avó!” Minha mãe havia se casado com um homem inesperado. Meu pai não era o noivo ideal em muitos aspectos. Era filho de um imigrante português com uma descendente de índios. Caboclo é justamente o nome que se dá à mistura de índio brasileiro com branco europeu. Consta que minha avó paterna se apaixonou perdidamente por mim, mas morreu um ano e seis meses depois que eu nasci. Havia um retrato do casal pendurado na parede da casa de uma das irmãs de meu pai, daqueles retratos em branco e preto, coloridos com pigmento aquarelado, na mais pura tradição interiorana, chamados de fotografia-pintura. Na imagem, minha avó estava sentada, tinha cabelos muito negros e trajava um vestido azul. Precisamente do mesmo tom de azul que coloriam os olhos do meu avô, de pé ao seu lado, de paletó, gravata e bengala.

Comments are closed.