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O desaparecimento do álbum de família

Não importa a que família o álbum pertence. A casa, o carro, os pais que um dia foram jovens, as crianças sem dentes e de ossos delicados, todos carregados de nostalgia… a fotografia de família se situa no limite da memória, assim como as palavras se situam na ponta da língua. (MERRIAH LAMB)

 RESUMO – Este artigo trata da fotografia de família na era pré-digital, focando nos álbuns e suas coleções de imagens inconscientemente construídas com o intuito de criar uma memória idealizada de si mesmas, ao tempo em que analisa os formatos técnicos que popularizaram o gênero e os movimentos artísticos que o gênero influenciou, reconhecendo esta modalidade de fotografia como uma fonte de inspiração para a pesquisa e a criação artísticas.

ABSTRACT – This article deals with the family photograph in the pre-digital era, focusing on the albums and their collections of images, unconsciously built by the families to create a self idealized memory. It also analyzes the technical choices which made the genre popular plus the artistic movements influenced by that sort of photography, recognizing it as a source of inspiration for the artistic research and creation.

PALAVRAS-CHAVE: Fotografia, álbuns de família, memória, instantâneo, arte contemporânea, imagens sentimentais

 

1. Introdução

No espaço de apenas uma ou duas décadas os álbuns de família, esses objetos que se supunha imortais, se tornaram obsoletos em face do advento da fotografia digital e da internet, tendo sido inexoravelmente substituídos por uma verdadeira avalanche de imagens virtuais arquivadas em discos rígidos e compartilhadas compulsivamente nas redes sociais.

Por mais de um século, guardiões primordiais da memória privada, os álbuns de família nos falavam de beleza, de orgulho e de felicidade e ainda que a vida real apresentasse outras facetas, eles compunham o ideal da família, sua utopia, seu desejo de dias perfeitos para caber no amor que os tornou possíveis. Testemunhamos o desaparecimento desse objeto, até recentemente tão comum em cada casa de família, o repositório da crônica familiar, sua história editada e embalada para o futuro.

Neste artigo, trataremos dos álbuns de família na fase pré-digital e de todo o legado que nos foi deixado pela fotografia analógica, em franca extinção na sua forma vernacular, mas ainda viva na fotografia de arte.

 

1.2. Materialização da Memória

O material de que se constitui a memória é ambíguo, sutil, instável. Com menos de 200 anos de existência, a fotografia está entranhada na consciência coletiva cumprindo um papel incomparável na materialização da memória – nada mais significador do passado, ao ponto de o objeto fotografia se confundir com a memória em si. O retrato de família está no cerne da representação da memória desde a sua popularização, no início do século 20, tendo migrado nas últimas décadas para o campo da arte, representando um dos gêneros mais fascinantes da fotografia artística contemporânea.

A modalidade é uma das formas mais populares de representação das relações humanas, tendo apresentado pouca ou nenhuma mudança ao longo do tempo. Roland Barthes (1915-1980) observa, em seu ensaio Câmera Lúcida[2], que o retrato de família é “invisível” pois remete o espectador a outras imagens que o impedem de ver verdadeiramente aquele retrato particular, isto quer dizer que sempre que olhamos para um retrato de família temos um dejà vu de outros retratos de família, e o que vemos é uma repetição. Tal fenômeno acontece porque sua simbologia permeia e impregna nossa memória e nossa cultura de forma profunda e contundente.

Situada no cruzamento de três temas – a fotografia como médium, a memória e as simbologias sentimentais – a fotografia de família teve até muito pouco tempo no álbum, o maior guardião do gênero. Sistematicamente colecionados ao longo do último século, álbuns de família testemunham mais que sua própria história, a evolução da fotografia, ao tempo em que se constituem numa fonte inesgotável de inspiração e de pesquisa para as mais diversas disciplinas, indo do campo da arte até o das relações humanas, passando pela tecnologia, a antropologia, a semiótica, e etcetera.

Verdadeiros bancos de memória privados, essas incríveis coleções de imagens carregam consigo a carga psicológica das famílias a que pertencem, suas relações, proximidades e ausências, sobrepondo camadas de teatralidade e de afeto. Uma das mais geniais fotógrafas de todos os tempos, a americana Diane Arbus (1923-1971), já nos advertia que “a fotografia é um segredo a respeito de outro segredo e quanto mais ela revela, menos dela se sabe”[3]. O álbum de família guarda segredos, admitindo hipóteses como a da foto não realizada, do personagem esquecido, da lacuna, em contraponto à personagens e eventos deliberadamente registrados, permitindo questionar até que ponto a representação fotográfica que a família recebeu acentuou ou ocultou características, hierarquias e status, com o objetivo da idealização.

Ficção e realidade, as fotos de família se situam em algum lugar entre um e outro como a forma mais sincera e, ao mesmo tempo, mais ludibriante de registro das relações humanas. Podemos inferir que alem de cumprir a função de construção da memória afetiva, suas seqüências inconscientemente organizadas nas páginas dos álbuns foram montadas com base tanto na afirmação quanto na negação de informações diversas, com o objetivo de construir uma narrativa segundo um modelo quimérico que visa a preservação de um ‘ideal da família’.

1.3. Autobiografia em Imagens

O álbum de família – uma autobiografia fotográfica – é uma invenção do final do século 19 e início do século 20 contendo a princípio retratos posados, realizados em estúdio. Posteriormente, com a evolução do médium e o advento das câmeras menores e filmes mais rápidos, esses retratos foram ganhando outros espaços e passaram a ser realizados com luz ambiente (ou com flashes) no círculo da própria família. No momento seguinte, com a popularização da fotografia instantânea (em inglês, snap-shot), os retratos de família adquiriram definitivamente uma estética informal, como é sabido que aconteceu no curso do médium em quase todas as regiões do mundo.

Com o progresso da técnica, coube aos instantâneos o registro de situações cotidianas que revelaram a convivência familiar, oferecendo uma visão do estilo de vida e das afinidades da família e tornando o conteúdo dos álbuns mais heterogêneo e muito mais lúdico, ao longo do tempo. Porem, foi a partir dos anos 1960 que as câmeras simplificadas substituíram de vez o trabalho fotográfico tradicional por uma profusão de imagens contendo sorrisos, festas e viagens de férias, produzidas e reproduzidas numa escala fenomenal.

Vale ressaltar que, já nas primeiras décadas da sua invenção, a fotografia se revelou um fenômeno enormemente popular, mas foi sem dúvida a passagem da abordagem profissional para a amadora, representada pelo instantâneo, que redimensionou o fenômeno, expondo o gigantesco potencial de assimilação do médium pela sociedade. Na verdade, a fotografia instantânea foi inventada ainda no séc. 19, quando a primeira Kodak[4] iniciou uma revolução que tornou acessível uma técnica até então bastante complexa. Ainda assim, foi a partir dos anos 1960 quando a fotografia popular adquiriu cor que o gênero se massificou e praticamente todas as famílias de classe média de paises ocidentais (sem falar do Japão) adquiriram a sua própria câmera. A partir de então – guardando-se as exceções dos álbuns de casamento e formatura – o instantâneo se tornou a fotografia de família por excelência.

O sucesso do instantâneo está relacionado ao seu baixo custo, à acessibilidade técnica e especialmente ao seu conteúdo voltado para eventos privados, celebrações e viagens, e o que torna suas imagens relevantes é o registro de entes queridos em momentos significantes e não certa técnica ou abordagem apuradas[5]. O gênero se tornou o meio através do qual inscrevemos a nossa história e, mais provavelmente, a história que desejamos preservar. Parafraseando Susan Sontag (1933-2004) em sua obra “Sobre Fotografia”, através do instantâneo cada família constrói uma crônica de si mesma, um kit de imagens que se destina a testemunhar seus laços[6], os defeitos técnicos tais como desfoques, flares, super e subexposições incorporam-se à linguagem através da qual experiências privadas são trazidas à público, demonstrando improvisação – que, por sua vez, sugere intimidade entre fotógrafo e fotografado.

Os álbuns de família guardam momentos simbólicos de oficialização de laços familiares e conquistas sociais como casamentos, aniversários, formaturas, nascimentos, alem das já citadas festas e viagens. Seu conteúdo espelha o que as famílias idealizam em si mesmas tendo sido, até recentemente, conservados como documentos celebratórios, “provas” de um funcionamento familiar apropriado[7]. Ainda segundo Sontag, ao invés de afirmar que o álbum de família documentou, talvez seja mais correto dizer que ele ‘inventou’ o relato de uma vida, para influenciar a memória histórica.[8] Esse mesmo álbum que se supõe uma ‘confirmação’, não deixa de ser “uma fantasia construída, seqüenciando fatos e unindo episódios, para contar uma história que se pretende coerente” [9].

Colecionados pelas famílias ao longo de mais de um século, muitos desses álbuns repousam agora em caixas e gavetas, esquecidos, enquanto outros tantos foram perdidos ou mesmo descartados. Mas, para que e a quem se destinam essas imagens? Se refletirmos sobre a afirmação de Sontag[10], de que o álbum de família é um monumento à memória, sustentando-a através do tempo, e se considerarmos tambem o já citado conceito de Barthes sobre a “invisibilidade” da fotografia de família, podemos concluir, ampliando o nosso campo de visão, que alem da construção da memória da própria família, o álbum serve também à construção do inconsciente coletivo.

 

1.4. Fotografias de Família na Arte Contemporânea

Na universo da arte contemporânea, a estética do instantâneo tornou-se a estética preferencial das fotografias da vida privada para artistas que viram na aparente casualidade de composição e ingenuidade técnica (imprecisão da fotometragem, ausência de lentes apropriadas, etc) uma fuga às imposições formais que a fotografia até então supunha. No final dos anos 1970, quando novos tendências já apontavam para uma grande mudança no campo da fotografia artística, surgiu a célebre “Ballad of Sexual Dependency”, da americana Nan Goldin (1953)[11], uma crônica íntima trazida à público. A princípio apresentada apenas para círculos restritos, a série de slides provocou enorme interesse de público e crítica e foi, sem dúvida, a grande responsável pela elevação da fotografia íntima à categoria de arte.

A partir de então o interesse pelos registros da vida privada (e, conseqüentemente, pelas fotografias de família) aprofundou –se bastante, tornando-se cada vez mais complexo. A exploração do instantâneo prosseguiu com a adesão de novos artistas e, a partir dos anos 90, alguns fotógrafos decidiram fazer o caminho inverso, voltando-se para o estúdio, com o intuito de revisitar tradições que remetem às primeiras décadas da fotografia.[12] Ambos os gêneros são parte do fenômeno que elevou a fotografia de família ao “centro nervoso” da arte contemporânea, seja através da reinvenção do retrato ou da construção cuidadosa de narrativas, com a finalidade de investigar mitos e modelos familiares.

O contraponto entre as narrativas arquitetadas por artistas e os álbuns de família propriamente ditos situa-se na maneira antagônica de abordagem dos mesmos temas. Poucas famílias conscientemente fizeram fotos negativas do seu cotidiano, expondo casas desarrumados e fraldas sujas, tampouco registraram deliberadamente seus piores momentos e seus dramas emocionais, descartando tudo aquilo que é considerado culturalmente mundano ou tabu [13]. Por sua vez, a fotografia artística se encontra repleta de estados emocionais considerados “inapropriados”, tais como tristeza, isolamento, disputas, doença, vício, conflitos, tensão[14].

Embora não cheguem a ser consideradas um movimento artístico independente, as narrativas da vida pessoal e familiar conquistaram um dos lugares de maior destaque no mundo da arte nas últimas décadas, a ponto de ofuscar a fotografia de rua, por muito tempo considerada sinônimo da fotografia artística. A desconstrução da estética da “família ideal” seja através do dia-a-dia revelado de forma confessional ou da criação de narrativas conflitantes visando a dissecação do álbum e sua reinvenção são hoje temas de maior relevância nas galerias, nas publicações de arte e nos museus, presentes em obras de artistas essenciais e fontes de inspiração a servir de guia para o desenvolvimento de um novo olhar sobre os acervos familiares.

 

1.5. Viver para Sempre

Finalmente, não se pode falar em álbuns de família sem fazer uma reflexão sobre a pouca importância atribuída ao objeto-fotografia pela nossa sociedade durante a era analógica. Em conseqüência do seu status de artigo efêmero, a fotografia tornou-se vítima da sua própria qualidade de artefato facilmente reproduzível e, por fazer parte da vida comum, os instantâneos de família se banalizaram, recebendo ao longo do tempo pouca atenção e cuidado[15].

O tema da fotografia de família nos remete diretamente à questão da conservação do objeto-fotografia em si, cujo resgate é ao mesmo tempo o resgate de nossa memória sociológica e cultural e está engajado em um movimento de conservação e restauração do médium, que vem se fortalecendo nos grandes centros do mundo. Tal movimento nos reconduz ao nosso próprio legado de imagens da vida privada em busca de novas fontes de pesquisa para a criação artística, nesse que é um dos campos mais férteis da arte contemporânea.

O interesse nos velhos álbuns de família expressa, em última instancia, o desejo de parar o tempo, desvendar a fábula e fazer com que o passado viva para sempre, desejo esse tão dramático quanto irremediavelmente humano, considerando-se a tese de Sigmund Freud (1856-1939)[16] de que a resposta para os nossos conflitos está trancada nas gavetas secretas do nosso passado. No entanto, essa viagem que o álbum de família incita, exige a compreensão do valor simbólico da fotografia, a se ampliar para alem do seu valor documental. Como repositório de lembranças, objeto sentimental e ‘máquina do tempo’, o álbum de família é matéria sensível e está repleto de sinais. Suas imagens, aparentemente paradas, se movem e nos carregam consigo, remetendo a lugares na memória, evocando reminiscências e afeto, abrindo um universo guardado, possibilitando assim, a sua recriação.

 

1.6. Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. Camera Lucida: Reflexions of Photogtaphy. (1981), Noonday Press, New York, 1988.

BOSWORTH, Patricia. Diane Arbus, A Biography. Avon Books, New York, 1985.

BRIGHT, Susan. Art Photography. Thames & Hudson, London, 2005.

COTTON, Charlotte. The Photography as Contemporary Art. Thames & Hudson, London, 2004.

GOLDIN, Nan. Ballad of Sexual Dependancy. Aperture, New York, 1986.

LAMB, Merriah. Reconstructing Family. Larry Sultan’s Pictures from Home. artigo.

LESY, Michael. Time Frames – The Meaning of Family Pictures. Pantheon Books, New York, 1980.

MARIEN, Mary Warner. Photography: A Cultural History. Laurence King Publishing, 2002, London.

MOOR, Ian L. e MOOR, Ângela H. The Imperfect Image; Photographs, their Past, Present and Future. The Centre for Photographic Conservation (Conference), Windermere, UK, 1992.

SONTAG, Susan. On Photography. Farrar, Straus & Giroux, New York, 1977.

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NEYDE LANTYER, Amsterdam, 2011.

[1] Merriah Lamb. Reconstructing Family. Larry Sultan’s Pictures from Home. artigo. S.l., s.d.

[2] Roland Barthes. Camera Lucida: Reflexions of Photogtaphy. (1981), Noonday Press, New York, 1988. (p.129)

[3] Patrícia Bosworth. Diane Arbus, A Biography. Avon Books, New York, 1985. Preface XI.m

[4] Trata-se da primeira Kodak, criada por George Eastman em 1888, sob o slogan “Você aperta o botão e nós fazemos o resto”.

[5] Charlotte Cotton. The Photography as Contemporary Art. Thames & Hudson, London, 2004 (p. 138).

[6] Susan Sontag, On Photography. Farrar, Strauss and Giroux, New York, 1978. 1981 (p. 08).

[7] Charlotte Cotton. The Photography as Contemporary Art. Thames & Hudson, London, 2004 (p 137).

[8] Susan Sontag, On Photography. Farrar, Strauss and Giroux, New York, 1978.

[9] Merriah Lamb, “Reconstructing Family. Larry Sultan’s Pictures from Home”, artigo.

[10] Susan Sontag, On Photography. Farrar, Strauss and Giroux, New York, 1978.

[11] Nan Goldin. Ballad of Sexual Dependency. Aperture, New York, 1986.

[12] Mary Warner Marien. Photography: A Cultural History. Laurence King Publishing, 2002, London.

[13] Charlotte Cotton, The Photography as Contemporary Art, Thames & Hudson, London, 2004 (p.138)

[14] Charlotte Cotton, The Photography as Contemporary Art, Thames & Hudson, London, 2004 (p.138)

[15] Sobre o tema, ver Ian L. Moor e Ângela H. Moor. The Imperfect Image; Photographs, their Past, Present and Future. The Centre for Photographic Conservation (Conference), Windermere, UK, 1992. Artigo.

[16] Fundador da Psicanálise.

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