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O avô

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Quando meu pai morreu, meu avô passou a nos visitar todas as tardes. Como minha mãe nao saia nunca, exceto às manhãs, para dar aulas numa escola de crianças pequenas, não havia um só dia em que ele não viesse – e se por acaso acontecesse de faltar, sabíamos que certamente algum imprevisto o havia impedido.

Minha mãe ficava contente com a visita cotidiana do pai, eu e meu irmão tambem. Gostávamos de vê-lo sentado no sofá da sala conversando polidamente com a filha e nos acostumamos a, desde muito cedo, escutar que minha mãe seria a sua filha favorita – comentário que melindraria outras filhas favoritas, mas que continha uma verdade delicadamente evidente: minha mãe tinha com seu pai uma relação fácil, dedicada, serena e respeitosa, sem muitas demonstrações de carinho explícitas, mas sem dúvida muito doce.

Ela não questionava sua autoridade, o papel de patriarca de todo um clã que ele cumpria, e reforçava com amor a imagem que tínhamos dele. Ela o admirava e a seu respeito nos contava histórias admiráveis, levando-nos a construir peça por peça no nosso imaginário e, consequentemente nas nossas vidas, o perfil desse homem que foi a figura masculina determinante da minha história.

A verdade é que João Lantyer amava de igual maneira – com nobreza e rigor – a todos os seus filhos e o fato de que cada um deles seguiu seu destinado caminho, todos graduados e com família constituída, o orgulhava. Em Queimadas era admirado por tê-los educado “com perfeiçao” tanto no que se refere à formação acadêmica quanto ao caráter, como me cansei de ouvir dos mais velhos em conversas de esquina. Sua dignidade era tanta que os seus filhos, netos e bisnetos a carregarão consigo e ainda por várias gerações viverão sob a influência dessa herança, trazendo-a no próprio caráter, muito provavelmente sem nem mais saber porque.

Meu avô era um homem poderoso e aos meus olhos de criança, o seu poder se ampliava em todos os aspectos. Com sua elegância rigorosa, vestido de terno, gravata e chapéu, religiosamente, a qualquer hora, todos os dias; com sua voz de polida autoridade, com o seu saber, com o seu caráter cosmopolita e refinado, me parecia o homem mais importante entre todos os homens da nossa pequena cidade. E ate hoje penso que ele foi realmente o homem mais poderoso que cheguei a conhecer.

Trata-se de um homem antigo, nascido nos últimos anos do sec 19 e falecido aos 93 anos de idade. Um homem que cruzou todo o sec. 20 assistindo coisas incríveis serem criadas e destruídas, gente, sonhos e possibilidades nascerem e morrerem; um homem de alma culta, admirador das novas tecnologias, das ciências e das belas idéias que a sua alma humanista absorvia com rapidez, embora fosse tambem profundamente conservador em se tratando de valores e tradições.

Católico, ia rigorosamente à missa aos domingos, às vezes me levando pela mão; importante funcionário público federal, proprietário de fazendas de gado no sertão, meu avô João Lantyer, filho do Coronel Francisco Lantyer, negociante e político de quem herdou parte da grande mansão em estilo francês conhecida por Chalet (da qual mais tarde tornou-se único dono, comprando as partes dos irmãos) cercada de terras, jardins e avarandados onde minha mãe nasceu, cresceu e se casou, era um homem de temperamento sólido e determinado.

Aos sábados, dia de feira em Queimadas, quando os trabalhadores do campo vinham à cidade e os homens movimentavam os seus negócios, formava-se uma pequena romaria a sua porta. Meu avô era um homem austero porém bondoso, que sem jamais ter levantado a voz acima de um certo tom, mas sempre com firmeza e polidez, era respeitado por todos e solicitado incessantemente por pedidos de ajuda, de conselhos e apoios de todos os lados.

Foi um homem que se tornou adulto muito cedo. Ainda menino perdeu a mãe e com apenas 17 anos perdeu tambem o pai, tornando-se, muito precocemente, responsável por uma familia composta por vários irmãos menores cujo encaminhamento na vida ele assumiu. Somente aos 31 anos, depois de casar o último deles, casou-se ele mesmo quando já era um senhor respeitado e “solteirão” cobiçado.

A história do casamento de João Lantyer, o “melhor partido da região” é famosa e bela e eu tive o previlégio de ouvi-la do protagonista. Aos 30 anos, poderoso e atraente e ainda solteiro, encontrou-se com Maria de Lourdes, a jovem prima de 19, interna de colégio de freiras, que viera passar feriados com a família. Em pouco tempo de conversa, ela o fez tomar conhecimento de que não estava feliz por ter sido prometida em casamento à um pretendente que lhe desagradava. Meu avô lhe fez, então, a pergunta que selaria o seu destino: “E se esse pretendente fosse eu?” ela candidamente lhe respondeu que nesse caso, a história seria outra. Ele, determinado, dirigiu-se à casa do meu bisavô materno, o Coronel Elias Marques, e lhe pediu a mão da filha.

Minha avó casou-se aos 19 anos e morreu de parto da sexta filha com apenas 28, no auge da paixão vivida pelos dois no casamento, paixão essa que eu pude testemunhar através das cartas que trocaram e que vieram ter com minha mãe, acabando em minha propriedade. Meu avô lamentou essa morte pelos 52 anos seguintes, até o fim da própria vida, confirmando os versos por ele escritos e que até hoje cobrem o túmulo da jovem mulher : “ Dorme em paz no teu jazigo / Na tua final mansão / Dorme no meu coração / Viverás sempre comigo.”

Muito tempo depois, quando todos os filhos já estavam casados, vivendo as suas vidas fora do Chalet, ele foi morar com Dona Maria Cândida, assumindo um relacionamento que se arrastava escondido de todos há anos e que veio a transformar-se em casamento quase no fim da sua vida. Esse casamento quebrou um tabu da família, que esperava que ele não voltasse a se casar, pois é de todos conhecido que minha jovem avó, na hora da morte, lhe pedira que nao o fizesse para se dedicar ao cuidado dos filhos.

Meu avô desempenhou papel fundamental na minha vida, na formação do meu caráter. Ele nos amava e amava toda a sua família com generosidade e tambem austeridade, e esse amor nos deu uma imensa estrutura emocional e nos garantiu ética e tradição. A sua atitude de patriarca, no sentido daquele que aglutina, que centraliza e protege uma organizaçao familiar, deu poder e prestígio aos Lantyer.

Vários dos traços mais relevantes que caracterizam a minha família materna e que persistem com a passagem das gerações vêm dele, heranças diretas do meu avô, produzidas a partir do seu caráter e da sua dignidade, do momento histórico em que viveu e da sua originalidade pessoal. Os mais marcantes desses traços, que são o seu legado na formação dos Lantyer contemporâneos, são o conservadorismo, o silêncio, a polidez, a timidez com o domínio da situação, a “aristocracia” traduzida pela elegância e pelo eruditismo – no seu caso, autodidata. Havia imensa dignidade e evidente nobreza em João Lantyer e até hoje, mesmo com a perda de poder e de carisma pelas novas gerações, ainda se observa tais traços em vários dos membros da família.

Neyde Lantyer, Amsterdam, 2005.

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